“HOMEM, QUEM ÉS TU?”: MEDITAÇÃO   CRISTà  PROFUNDA

 

WILFRIED   STINISSEN

Tradução: Frei Gabriel Haamberg, O. Carm

 FREI WILFRIED  STINISSEN

 

Uma corrente de paz

             “Vou fazer correr sobre ela um rio de paz” (Ez 66,12). “Nosso Deus é um Deus de paz”. (I Cor 14,33). Derrama sua paz sobre você, não somente  sobre sua alma, mas também sobre seu corpo. A sua paz é como “um ungüento fino sobre a cabeça e que desce pela barba... até a orla de suas vestes”(Sl 133, 2). Deixe esse óleo santo escorrer lentamente sobre a cabeça, os ombros, os braços, o peito, o ventre, as pernas, os pés. Que nenhuma parte do corpo escape a este contato benfazejo. À medida que o corpo se deixa tocar pela paz de Deus, perde todas as tensões. Abandona toda a resistência. Aquilo que estava bloqueado se desfaz. O que estava endurecido se torna flexível. Você sente a paz penetrar pouco a pouco em todo corpo, estendendo-se até alcançar em você o homem interior. Deus derrama um bálsamo sobre seu corpo e sua alma, um bálsamo que refresca, purifica e consola.

             Deixe que a paz de Deus mais uma vez se derrame sobre você, e talvez mais uma vez, até poder dizer: “Minha alma está em paz e em silêncio como uma criança nos braços da mãe” ( Sl 131,2). Deus comunicou-lhe algo de seu próprio repouso.

            Isso não impede certamente que apareçam pensamentos e preocupações. O trabalho que está à sua espera bate à porta de sua memória e imaginação. Não lute contra isso, não se ponha a discutir. Em vez disso, submerja de novo na paz de Deus. Desça antes na correnteza da paz de Deus. Esta descida em você tornar-se-á mais fácil, repetindo suavemente depois de cada distração: “Volta, minha alma, a teu repouso porque Deus cuidará de ti”  (Sl 116,7).

            Banhe-se freqüentemente na paz de Deus! Não considere isso como uma fuga da realidade; pelo contrário, você está penetrando mais profundamente na realidade autêntica; você distingue mais facilmente a verdade da mentira, o essencial do acessório.

            “E a paz de Deus, que supera toda inteligência, guardará seu coração e seus pensamentos em Jesus Cristo” (Fl 4,7).

 

“O verdadeiro amor expulsa o temor”  (I Jo 4,18)

             Aquele que reconhece o amor como sua essência, não tem medo de perdê-lo ou que outros o firam. Oh! como tememos que outros venham pisotear nossa personalidade e colocar entraves ao nosso desenvolvimento! O amor que somos não pode ser roubado. A expressão “meu amor” é uma contradição consigo mesma, porque no amor não existe “meu” nem “teu”. Quem tem medo de perder a personalidade, deveria exercitar-se em fundi-la, sempre novamente, dissolvê-la no amor e pensar em si, somente em termos de amor. Só então existe a verdadeira personalidade, a única que importa.

                        A mesma coisa acontece com o medo de morrer. Não se pode mais falar de morte quando se compreende o que é a vida. Não existe morte para aquele que conhece a vida: “Quem vive e crê em mim jamais morrerá” (Jo 11,26). A única coisa importante é encontrar a vida! Quem descobriu a vida já resolveu a questão da morte. A morte converte-se numa impossibilidade. Santo Agostinho afirma que o mal não tem existência metafísica: o mal é simplesmente uma ausência do ser. O mal não vem de Deus, e sim do demônio e ele  não pode criar realidade, somente pode pervertê-la. Ele é o mentiroso (Jo 8,44). A morte é igualmente ausência do ser. A morte não é o antagonista à vida. O que existe é a vida, a paz, a alegria. Porém podemos afastar-nos da vida, ou melhor, não querer enxergá-la, fechar os olhos e dizer que não há mais nada além das sombras. Bastaria abrir os olhos para descobrir que tudo é luz. Podemos fazer o papel do avestruz escondendo a cabeça debaixo da areia na hora da tempestade. A realidade, isto é, a substância de tudo o que existe é luz. “Eu sou a luz do mundo”, diz Jesus, “quem me segue, não caminhará nas trevas, pois possui a luz da vida” (Jo 8,12)